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Editora: 12min
O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa. Segundo os dados citados pelas reportagens, ele pode ser fatal em um a três pacientes a cada mil casos, provoca complicações de longo prazo como pneumonia e inchaço no cérebro, e leva à internação cerca de 20% das pessoas infectadas.
A proteção depende de uma vacina e de um comportamento coletivo. A vacina tríplice viral, conhecida pela sigla MMR em inglês (sarampo, caxumba e rubéola), tem 93% de eficácia com uma dose e 97% com a segunda, e a imunidade é vitalícia. Mas a vacina individual não basta: ao menos 95% de uma comunidade precisa estar vacinada para impedir surtos. É o que se chama de imunidade coletiva, o nível de proteção que torna difícil para a doença se espalhar.
Nos Estados Unidos, o instrumento que sustentou esse patamar por décadas foi a escola. A exigência de vacinação para matrícula funcionou como um pacto social quase centenário, descrito na reportagem da Rolling Stone: vacinar os filhos não apenas para protegê-los, mas para proteger os vulneráveis, os imunocomprometidos e os bebês pequenos demais para receber a vacina. Uma decisão da Suprema Corte americana de 1905, no caso Jacobson contra Massachusetts, afirmou o direito dos estados de exigir vacinação. O sarampo foi declarado eliminado no país em 2000, e no quarto de século seguinte a média nacional ficou em cerca de 180 casos por ano.
É contra esse pano de fundo que aparece a notícia deste ano.
Os Estados Unidos vivem seu pior ano de sarampo desde 1991, com quase 3.900 casos registrados, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). O epicentro é a Pensilvânia: mais de mil casos e cinco mortes, todas em pessoas não vacinadas, no maior surto estadual em mais de três décadas.
Em Nova York, a governadora Kathy Hochul declarou estado de emergência numa segunda-feira, a primeira declaração desse tipo desde que os casos começaram a subir em 2025. O estado registrou 108 casos no ano até 3 de outubro, contra um único caso em 2023, 15 em 2024 e 48 em 2025. Desde 15 de julho, 92 casos apareceram em comunidades rurais com baixa cobertura vacinal, espalhadas por 18 condados.
A ordem executiva amplia quem pode vacinar e testar: enfermeiros registrados passam a poder solicitar exames para suspeita de sarampo, farmacêuticos podem vacinar crianças a partir de dois anos, e todas as aplicações da tríplice viral devem ser informadas aos registros de imunização em até 72 horas. A vacinação continua exigindo consentimento do paciente ou do responsável legal. A emergência vigora até 4 de novembro.
Desde que Robert F. Kennedy Jr., conhecido antes do cargo como ativista contrário às vacinas, assumiu a secretaria de Saúde e Serviços Humanos (HHS) em fevereiro de 2025, as taxas de vacinação de crianças que entram na pré-escola caíram mais de dois pontos percentuais e os pedidos de isenção religiosa ou filosófica subiram para 4%, segundo a Rolling Stone. O sarampo passou de um patamar doze vezes menor em 2024 para mais de 3.600 casos no ano.
Nesta semana, Kennedy apresentou no Instituto Nacional de Saúde (NIH) um centro de pesquisa sobre lesões vacinais. "Lesão vacinal é uma doença invisível, e ela é invisível de propósito", disse ele, segundo imagens divulgadas pelo próprio HHS. O programa vem acompanhado de propostas para reformar o sistema federal de notificação de eventos adversos e remunerar médicos que relatem suspeitas de lesões.
O CDC informa em seu site que há uma "chance muito remota" de vacinas causarem reações graves, lesões ou morte. Peter Hotez, codiretor do Centro de Desenvolvimento de Vacinas do Texas Children's Hospital, disse à CNN que o sistema atual já funciona, tendo detectado efeitos raríssimos durante a pandemia, como miocardite em homens jovens que receberam vacinas de mRNA, a uma taxa de cerca de 1 em 20 mil. Paul Offit, do Hospital Infantil da Filadélfia, afirmou que a iniciativa dá a Kennedy uma plataforma para promover crenças não comprovadas pela ciência.
Em nota, a porta-voz do HHS, Emily Hilliard, afirmou que atribuir o retorno do sarampo a Trump ou a Kennedy "distorce fundamentalmente quando e por que" ele começou, apontando as interrupções na vacinação de rotina durante a pandemia, anos antes de os dois assumirem. Segundo ela, o departamento mantém o compromisso com uma resposta eficaz de saúde pública "respeitando a escolha informada, os direitos dos pais e a liberdade religiosa".
Além da Virgínia Ocidental, apenas quatro estados não permitem isenções religiosas ou filosóficas à vacinação escolar: Connecticut, Califórnia, Maine e Nova York. Em agosto, Trump assinou ordem executiva determinando que o procurador-geral tome medidas judiciais contra eles.
A Virgínia Ocidental é o único dos cinco que nunca admitiu exceção além da médica, por uma lei em vigor desde 1937. No início de 2025, o governador Patrick Morrisey determinou por ordem executiva que o departamento estadual de saúde concedesse isenções religiosas. O Conselho de Educação votou por 9 a 0 para aplicar a lei como está e recusou as isenções. O advogado Aaron Siri, que atua há mais de uma década para afrouxar leis de vacinação e é descrito por cinco funcionários atuais e antigos do HHS como uma espécie de assessor informal de Kennedy, processou o conselho em nome de uma mãe que teve a isenção bloqueada. Siri afirma que não presta assessoria jurídica ou regulatória ao secretário.
O caso segue sem decisão na Corte de Apelações da Virgínia Ocidental. Em abril, uma corte federal de apelações confirmou, em processo relacionado, o direito do conselho de exigir vacinação. Del Bigtree, do grupo que financia os processos, diz que levar um caso à Suprema Corte é "absolutamente o objetivo", em busca de uma decisão "mais moderna" que a de 1905. Outro processo movido por Siri, em nome de escolas amish multadas em Nova York, também pode chegar lá.
Ao anunciar as medidas, Kennedy disse que o objetivo era restaurar a confiança nas instituições de saúde. A confiança dos americanos no CDC caiu em meio às mudanças conduzidas por ele, segundo pesquisa do KFF em fevereiro. No outono passado, levantamento do Pew mostrava que a maioria dos eleitores, em todos os partidos, se dizia confiante no calendário infantil de vacinação, aferição feita antes de Kennedy lançar um calendário reduzido. Pesquisa do Annenberg Public Policy Center aponta que menos de um em cada quatro americanos (23%) vê Kennedy favoravelmente. O HHS, como citado acima, atribui o recuo da vacinação a causas anteriores à gestão.
Em Belleville, na Pensilvânia, a Central Pennsylvania Clinic atende adultos e crianças com distúrbios genéticos comuns entre os amish e a comunidade conhecida como Plain people, grupo com cobertura vacinal abaixo da média e tradicional desconfiança de autoridades não religiosas. "Nos cinco anos em que trabalho aqui, não me lembro de tantos pacientes internados em poucas semanas", disse a médica Katherine Mascia à CNN.
A clínica não tem ventilação avançada nem salas de pressão negativa: se um infectado entra, o prédio inteiro fica comprometido por duas horas. O estacionamento dos fundos virou triagem, com espaço para carros e charretes. Segundo Mascia, a chave para aumentar a cobertura não é pressão, e sim consistência: repetir a recomendação e dizer que a porta segue aberta. Mais de duas dezenas de pessoas se vacinaram num mutirão em meados de agosto; outras 73, em meados de setembro, depois que a morte de um jovem de 18 anos no condado foi divulgada.
Três frentes concretas permitem acompanhar para onde isso vai. A primeira é o centro de pesquisa sobre lesões vacinais: vale observar se ele produz dados que levem a mudanças no calendário infantil de vacinação. Até agora, segundo a Rolling Stone, nenhuma vacina foi retirada do calendário, embora seis de 17 tenham sido movidas para uma categoria de "decisão compartilhada" entre família e médico, mudança congelada por um juiz federal.
A segunda é judicial. O caso da Virgínia Ocidental aguarda decisão da corte estadual de apelações, e o processo movido em nome das escolas amish em Nova York pode chegar à Suprema Corte. Uma decisão sobre vacinação para matrícula escolar alteraria a regra que vale em todo o país, não apenas nesses estados.
A terceira são os indicadores. As pesquisas de KFF, Pew e Annenberg medem confiança; as taxas de vacinação infantil medem comportamento. Juntas, elas ajudam a distinguir se o surto atual é um pico isolado ou o começo de algo mais longo. Para quem vive fora dos Estados Unidos, o dado transferível é o limiar: abaixo de 95% de cobertura, uma comunidade perde a proteção coletiva, independentemente de quantas pessoas nela estejam vacinadas individualmente.
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