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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
O que sobrou de muitos bairros de Caracas e da Guaira na manhã seguinte foi isto: concreto partido, fachadas no chão, ruas intransitáveis e gente cavando pedra com a mão atrás de sobreviventes. A Venezuela acordou soterrada. E tudo isso, a distância entre uma cidade de pé e uma cidade em ruínas, coube em trinta e nove segundos.
Esse foi o intervalo entre o primeiro tremor e o segundo, na quarta-feira, vinte e quatro de junho, no norte do país. Tempo curto demais para fugir, longo o bastante para que muita gente acreditasse que o pior já havia passado. Quando a terra voltou a se mover, veio mais forte. Até o domingo, vinte e oito de junho, o balanço oficial falava em mil quatrocentos e cinquenta mortos, mais de três mil feridos e milhares de desaparecidos, números que sobem a cada boletim.
O que aconteceu ali tem nome técnico e é raro o suficiente para que sismólogos parassem para olhar. Não foi um terremoto, foram dois, quase colados. O primeiro teve magnitude sete vírgula dois, com epicentro a vinte e três quilômetros de San Felipe, no estado de Yaracuy, e profundidade de vinte vírgula três quilômetros. O segundo, sete vírgula cinco, atingiu um ponto a vinte e oito quilômetros a sudeste de Yumare, mais raso, a apenas dez quilômetros da superfície. Os especialistas chamam isso de doblete sísmico, ou dueto: dois grandes abalos cujos focos ficam mais próximos um do outro do que o tamanho da própria ruptura, separados por um intervalo curto demais para serem coincidência.
Há um equívoco comum quando se fala de terremotos na América do Sul. A imaginação corre para a costa do Pacífico, para o Chile, para o Cinturão de Fogo. O norte do continente parece, à distância, um lugar estável. Não é.
A Venezuela está sentada exatamente sobre a fronteira entre duas placas tectônicas gigantescas, a placa do Caribe e a placa Sul-Americana. Elas não se chocam de frente, elas se arrastam uma contra a outra, de lado, num atrito lento e constante que dura milhões de anos. Esse arrasto criou uma malha de falhas geológicas que cruza o país, com nomes que os geólogos venezuelanos conhecem de cor: Boconó, San Sebastián, El Pilar. A energia da fricção se acumula no subsolo durante décadas, às vezes séculos. Quando se rompe, ela se libera de uma vez. Foi o que se viu na quarta-feira.
O detalhe que explica a destruição é a profundidade. O segundo abalo, o mais forte, foi também o mais raso. Terremotos superficiais concentram sua força perto de onde as pessoas vivem, em vez de dissipá-la nos quilômetros de rocha até a superfície. Por isso um sete vírgula cinco a dez quilômetros de profundidade faz mais estrago do que números maiores liberados lá no fundo.
Vale guardar um dado para dimensionar a raridade. Num raio de duzentos e cinquenta quilômetros da zona atingida, o último século registrou apenas sete terremotos de magnitude seis ou mais. A região não é o Chile, onde a terra avisa com frequência. Aqui o silêncio é longo, e talvez por isso mesmo a memória coletiva e a preparação fiquem para trás. Em setembro do ano passado, um dueto menor, de magnitude seis vírgula dois e seis vírgula três, já havia matado uma pessoa e ferido mais de cento e dez nos estados de Zulia e Lara. Foi um aviso que poucos leram como aviso.
o que transforma um tremor em tragédia
Um terremoto, sozinho, não mata ninguém. O que mata é o que está construído em cima da falha. Essa é a frase mais dura da sismologia, e a mais útil.
Na Venezuela, o tremor encontrou um país já fragilizado por anos de crise econômica e política, com um sistema de saúde corroído por falta de investimento e uma infraestrutura urbana que envelheceu sem manutenção. La Guaira, na costa, foi o estado mais castigado. Em Caracas, prédios desabaram parcial ou totalmente em bairros como San Bernardino e Baruta, e o centro histórico ficou coberto de vidros e cacos de fachada. O aeroporto internacional de Maiquetía teve o teto danificado e suspendeu voos. As primeiras horas viraram uma corrida contra aquilo que os resgatistas chamam de janela de ouro, as primeiras quarenta e oito a setenta e duas horas, quando ainda há chance real de tirar alguém vivo dos escombros.
A resposta veio de fora e veio rápido. Os Estados Unidos anunciaram cento e cinquenta milhões de dólares em ajuda e mobilizaram equipes de resgate e navios. A Colômbia mandou mais de sessenta socorristas e cães farejadores. O Paraguai enviou militares especializados. As Nações Unidas coordenaram brigadas de busca urbana. No domingo, mais de dois mil e seiscentos resgatistas e cento e trinta e sete cães já trabalhavam no país. Entre eles, um border collie chamado Tsunami virou símbolo improvável de esperança ao localizar cerca de uma dúzia de pessoas com vida.
A Fifa parou os estádios da Copa do Mundo por um minuto de silêncio antes de três jogos. O papa Leão Décimo Quarto rezou pelos mortos no Ângelus. Diante de um abismo dessa profundidade, o que sobra é o que sempre sobrou: gente cavando pedra com a mão para alcançar outra gente.
Para quem busca entender o mundo com profundidade. O doblete sísmico é um lembrete de que a Terra não opera segundo a nossa intuição. Estabilidade aparente não é ausência de tensão, é tensão acumulada. Vale para placas tectônicas e vale, com a devida licença, para sistemas sociais que parecem calmos por muito tempo.
Para quem só quer respirar diante de tanta notícia pesada. Entender o mecanismo costuma assustar menos do que a manchete. Terremoto não é castigo nem caos sem sentido, é física conhecida acontecendo num lugar que se conhece. Saber por que a terra tremeu não devolve nada a quem perdeu, mas devolve ao resto de nós a única coisa que a catástrofe rouba primeiro, que é o chão sob os pés.
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