Vučić admite derrota na Sérvia para movimento nascido de protestos estudantis - Resenha crítica - 12min Originals
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Vučić admite derrota na Sérvia para movimento nascido de protestos estudantis - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Em novembro de 2024, uma marquise de concreto desabou sobre a entrada da estação ferroviária de Novi Sad, a segunda maior cidade da Sérvia, e matou 16 pessoas. O prédio tinha passado por reforma. A cobrança por responsabilização virou protesto, o protesto virou movimento nacional contra a corrupção e, quase dois anos depois, esse movimento virou maioria no Parlamento.

No domingo (25), a Sérvia elegeu os 250 deputados de sua Assembleia Nacional. Cerca de uma hora e meia depois do fechamento das urnas, Aleksandar Vučić, que governava o país havia mais de uma década, apareceu na sede de seu partido em Belgrado e disse: "Está claro que perdemos estas eleições". Foi o fim de 14 anos de poder do Partido Progressista Sérvio (SNS), no comando desde 2012.

Da marquise que caiu ao movimento que venceu

Os protestos começaram com estudantes universitários, que organizaram bloqueios e marchas. A acusação central era que corrupção e apadrinhamento político em obras públicas tinham comprometido a segurança da estação. O governo e o SNS negaram as acusações.

A mobilização se espalhou para professores, agricultores e outros setores, e se tornou a maior desde a queda de Slobodan Milošević, em 2000. Em 15 de março de 2025, cerca de 350 mil pessoas se reuniram na praça Slavija, no centro de Belgrade, em um dos maiores protestos da história do país.

Nenhuma das demandas originais foi atendida. Foi então que os estudantes decidiram disputar eleição. A eleição deste domingo não estava prevista: o mandato do Parlamento ia até o fim de 2027. Vučić renunciou à presidência em setembro, antes do fim de seu segundo e último mandato constitucional permitido, dissolveu o Parlamento e convocou o pleito antecipado para disputar o cargo de primeiro-ministro.

A noite da eleição: números, concessão e festa na rua

O comparecimento foi o maior desde a dissolução da Iugoslávia, em 1992. Às 19h, os institutos CeSID e Ipsos calculavam 67,6% de participação; a comissão eleitoral chegou a quase 70%. Filas se formaram em cidades e vilarejos, com esperas de até duas horas, e também no exterior, de Ljubljana e Munique a Los Angeles, Chicago e Paris.

Com 96% das seções apuradas, segundo a comissão eleitoral, a Lista Estudantil tinha 2,24 milhões de votos (52,65%) contra 1,67 milhão do SNS (39,2%). Em sua fala, Vučić projetou entre 135 e 140 cadeiras para os estudantes e cerca de 105 para seu partido. A projeção do Ipsos/CeSID atualizada com resultados parciais dava 141 cadeiras à Lista Estudantil, acima das 126 necessárias para a maioria, e 103 ao SNS; quatro partidos de minorias ficariam com as seis restantes.

Vučić atribuiu a derrota à imprensa independente da Sérvia e a uma suposta interferência de países europeus não identificados e do "deep state americano".

As ruas de Belgrado e Novi Sad se encheram em seguida, com buzinas, sinalizadores e o canto "Aleksandar se foi". Manifestantes desmontaram as barracas de apoiadores de Vučić acampados havia mais de um ano em um parque central da capital. "Isso parece Ano-Novo para mim, como três Anos-Novos de uma vez", disse Ivana, 43 anos, ao Guardian. "Finalmente podemos respirar."

A votação também teve problemas. A organização independente CRTA registrou pressão sobre eleitores ou mesários em quase um terço das 500 seções que monitorou, além de falhas na proteção do sigilo do voto. O CeSID recebeu cerca de 260 relatos de possíveis irregularidades até as 17h, incluindo fotografia de cédulas, voto em grupo e problemas de identificação.

Quem é Vučić e por que ele foi difícil de derrotar

Vučić, 56 anos, foi primeiro-ministro de 2014 a 2017 e presidente a partir de 2017. Em entrevista à Fox News Digital em junho, ainda como presidente, apontou o crescimento econômico como prova da transformação do país: "Nosso PIB era de 32 bilhões de euros quando me tornei primeiro-ministro. Este ano vai passar de 100 bilhões de euros". Parte do eleitorado o credita por tirar a Sérvia da obscuridade econômica e por obras de infraestrutura.

Na campanha, prometeu aumento de aposentadorias e salários do setor público, investimento na saúde pública e subsídios para casais jovens. Manteve a candidatura da Sérvia à União Europeia enquanto recusava aderir às sanções ocidentais contra a Rússia pela invasão da Ucrânia, e cultivou laços com Moscou e com a China.

Organizações de direitos humanos e ativistas afirmam que a repressão piorou depois do desabamento. Pesquisadores ouvidos pela Al Jazeera descrevem o SNS como um partido com eleitorado fiel sustentado por um modelo clientelista, em que bens e serviços são trocados por apoio político. O governo e o partido negam repetidamente as acusações de corrupção, repressão e espionagem de opositores. Vučić afirmava que os estudantes eram financiados por agentes estrangeiros na Croácia e em Montenegro, o que os estudantes negam.

Monitores internacionais e locais já tinham manifestado preocupação com uma campanha marcada por detenções, controle quase total do governo sobre a mídia e relatos de vigilância e ataques cibernéticos contra ativistas.

Quem venceu: uma lista sem rosto único

A Lista Estudantil, Estudantes Vencem foi montada por assembleias estudantis das faculdades, mas nenhum estudante aparece entre os 250 candidatos. O grupo opera de forma descentralizada e não tem líder oficial. No topo da lista está Ilija Srdanović, cardiologista e professor da Universidade de Novi Sad, o que não significa que ele será o primeiro-ministro.

Os demais nomes vêm de fora da política: médicos, atores, acadêmicos, agricultores, artistas e atletas, entre eles o ex-jogador de basquete Dejan Bodiroga, presidente da Euroliga. A lista reúne mais de 160 doutorados. Vários partidos de oposição desistiram de concorrer e pediram voto para os estudantes.

O programa é doméstico: expurgar agentes públicos que violaram regras na repressão a protestos, impedir que fiéis do partido dirijam empresas estatais e livrar a emissora pública do controle político. O slogan era "Sérvia ou Máfia?". Vilipendiados pela imprensa governista, os candidatos percorreram de bicicleta e a pé áreas rurais, redutos tradicionais do SNS.

"Esta não é uma vitória eleitoral comum, é uma avalanche que varreu um regime autoritário e toda a cena política", disse Nebojša Vladisavljević, professor de ciência política da Universidade de Belgrado, à BBC em sérvio.

O que muda e o que segue incerto

A reação externa foi rápida. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu, parabenizaram a Lista Estudantil e disseram estar prontos para apoiar reformas no Estado de direito, na liberdade de imprensa e no combate à corrupção. A comissária de alargamento, Marta Kos, afirmou que "a porta da UE está aberta". O Conselho da Europa fez aceno semelhante. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, elogiou a contribuição de Vučić às relações com a Rússia e disse esperar que a nova força política entenda que cooperar com Moscou interessa à Sérvia, acrescentando: "Mas, como se sabe, é preciso dois para dançar tango".

A política externa, porém, é o maior ponto cego. Igor Bandović, diretor do Centro de Política de Segurança de Belgrado, afirmou à Al Jazeera que esse é o item menos definido do programa estudantil: os candidatos adotam linha dura sobre Kosovo, propõem revisar acordos firmados sob mediação europeia e chegaram a cogitar um referendo sobre a adesão à UE em até seis meses de governo, além de sinalizar continuidade na relação com a Rússia. Um referendo, disse ele, poderia atrasar ainda mais o processo de adesão.

Srđan Majstorović, do European Policy Centre, avalia que o novo governo enfrentará a tarefa mais difícil de reconstruir o sistema democrático depois de 14 anos do que descreve como dano sistemático às instituições, ao Estado de direito e à confiança pública.

O que fazer com essa informação

Três coisas concretas dizem, nas próximas semanas, se a virada sai do papel. A primeira é o nome do primeiro-ministro: a Lista Estudantil não tem líder único e ainda não indicou quem ocuparia o cargo, e essa escolha mostra como um grupo sem hierarquia formal decide. A segunda é a eleição presidencial, consequência direta da renúncia de Vučić em setembro: a presidente da Assembleia, Ana Brnabić, ocupa o cargo interinamente, e a votação deve ocorrer em dezembro. A terceira é a execução do próprio programa: responsabilização por casos de corrupção, fim das nomeações partidárias em estatais e autonomia da emissora pública são promessas verificáveis, com prazo e resultado visível.

Vale também guardar o que ainda não está definido. As fontes ouvidas pelas reportagens tratam como incerta qualquer guinada nas relações com Rússia e União Europeia, e o próprio movimento evitou compromissos detalhados nesse terreno durante a campanha. Mudança de governo não equivale automaticamente a mudança de política externa.

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